Diário da MPB: A Filha Não-Anunciada de Renato Russo e Marisa Monte




Marina Sena, com seu pop solar, sua voz vibrante e a cadência de quem canta do corpo, é um fenômeno inegável. Mas o que se esconde, sussurrado e risonho, nas mesas de bar do Leblon e nas rodadas de violão em Santa Tereza? Uma lenda. A mais deliciosa e improvável lenda da Música Popular Brasileira: a de que Marina Sena não é apenas uma estrela ascendente, mas sim a filha secreta de Renato Russo e Marisa Monte.
​É claro que a cronologia e a biografia gritam "Absurdo!". Mas, na arte, os fatos são meros detalhes. O que importa é a genealogia do som.
​Pense bem. Na música de Marina, há um casamento impossível que, quando ouvido, se torna inevitável.

 
​De Renato Russo, ela herdou a eletricidade, o fio desencapado de sentimento que queima quando toca. É aquele tom confessional e urgente que transformava as dores individuais em hinos de uma geração inteira. Marina canta o desejo e o desencontro com a mesma intensidade febril com que Renato cantava o protesto e a melancolia. Há uma veia punk-romântica em seu DNA melódico. O “Eu te fiz de refém, você me fez de refém” de “Por Supuesto” tem o mesmo peso épico e juvenil do “Somos cowboys, don’t turn around” que atravessou os anos 80. É a dramaticidade levada a sério, mas com a ironia leve de quem já sabe o final.





​De Marisa Monte, ah, dela veio o verniz do refinamento, a elegância sutil que transforma o poperô em poesia. É a precisão técnica que faz a voz planar, o timing perfeito, o sotaque carioca que se mistura ao mineiro numa alquimia de brasilidade chique e despojada. Marisa é a mestra em fazer canções complexas soarem como brisa. E Marina faz isso. Ela pega o batidão e o subverte com melodias que parecem ter sido compostas sob a sombra de um cajueiro no Nordeste, mas gravadas com a acústica perfeita de um estúdio no Jardim Botânico. É o sofisticado descompromisso. A cadência quebrada, a malandragem melódica que Marisa elevou à arte.
​A lenda se sustenta, portanto, não no cartório, mas no palco.


​Marina Sena é o Pop Perfeito porque carrega a contradição de seus supostos pais: ela é a sensualidade do Rio (Marisa) que beija a melancolia de Brasília (Renato), tudo banhado pelo sol de Minas Gerais (a sua origem real).
​Ela é a prova de que a MPB é um rio caudaloso onde as águas da Legião Urbana, dos Tribalistas e do Pop Efervescente se misturam. E o resultado é uma filha que não tem a carga de ser de ninguém, mas que, magneticamente, tem um pouco de tudo.
​É por isso que, ao ouvir Marina Sena, sentimos uma familiaridade elétrica. É o sotaque que conhecemos, o ritmo que vibra no quadril e a letra que aperta o peito. A filiação, neste caso, não é biológica, é puramente espiritual e musical.
​Marina Sena não precisa ser filha de Renato Russo e Marisa Monte para ser grande. Mas que a ideia explica muita coisa na riqueza e na contradição do seu som, isso explica.
​E que venham as próximas gerações, herdeiras deste "Diário da MPB" secreto, onde os filhos mais geniais são aqueles que nascem de um acorde e de uma lenda.

 
Por Vitor Costa (@vittcsa) 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memórias do Rock Brasil: Ícones Inesquecíveis e os Rumores de um Romance